Trail pelos Cumes do Alto Marão

A Ronda dos Cumes Sagrados lançou o repto e nós não queríamos perder esta aventura por nada. Era a oportunidade indicada para voltar ao Marão. Desta vez sem a bicicleta, num registo de trail running para percorrer um percurso com quase 50 quilómetros. Sem marcações, abastecimentos, meios de socorro e outros itens de conforto muito habituais nas provas de trail. Percorrido sem pressas ou competições e com um único objetivo terminar o percurso!

És tu, o percurso, a serra e o grupo principal (se os conseguires acompanhar)

À hora marcada já o grupo de vinte corredores se encontrava junto à Pousada de São Gonçalo. Nós fomos os últimos a chegar, mas rapidamente nos preparamos para os acompanhar, apesar de termos o track carregado nos nossos relógios queríamos seguir em conjunto.

Arrancámos de uma quota próxima dos 900 metros e daí tínhamos a primeira missão de subir ao Parque Eólico de Pena Suar localizado numa montanha entre Amarante e Vila Real. Nos primeiros três quilómetros o grupo partiu-se em dois, mas ficou separado por poucos minutos. Demorámos cerca de três quartos de hora a chegar a Pena Suar (Km 4) e percebemos que o nevoeiro ia ser um companheiro constante deste percurso. E por isso, não conseguimos avistar as serras lá ao longe como as de Fafe, a Cabreira ou o Alvão.

Descemos progressivamente até ao quilómetro cinco onde tínhamos uma descida de 400 metros, empedrada e altamente vertiginosa. Daqui avistávamos algumas pequenas aldeias de Vila Real, como Campeã, a única que eu conhecia. Percorremos mais uns 3 ou 4 quilómetros, pouco irregulares, até cruzarmos o IP4 e subirmos novamente aos 1330 metros, mesmo em cima da montanha por onde passa o Túnel do Marão. Até ao momento tinha sido a mais abrupta subida! No topo vários charcos de água estavam totalmente congelados denotando a baixa temperatura. Viramos à esquerda alguns metros só para avistar o Portal da Freita onde se encontram as paredes iniciais do Padrão Comemorativo dos Centenários da Pátria mandado erguer pela altura da Segunda Grande Guerra Mundial.

Uma nova descida em formato de estradão conduziu-nos até uma zona designada por Área Mineira Desativada que fez o pessoal desfrutar da fantástica vista deste local. Sem dúvida que estávamos perante uma imponente varanda…

Junto da entrada para as minas Couto Mineiro do Marão, antiga exploração mineira de Volfrâmio, subimos umas pequenas e velhas escadas que nos auxiliaram nesta escalada montanha acima. Tínhamos um pouco mais de 18 quilómetros e quase 3 horas percorridas. Fizemos uma paragem um pouco mais prolongada para agrupar o grupo e comer qualquer coisa, antes de avançarmos em direção à Senhora da Serra que marcaria o ponto mais alto destes cumes que estávamos a alcançar.

Paramos por breves momentos no Miradouro da Senhora da Serra (1420m) para a foto da praxe, mas aqui o nevoeiro continuava a impedir uma visualização mais profunda das áreas envolventes e seguimos viagem. O frio, o vento e o orvalho ameaçavam a nossa coragem enquanto nos refugiamos num abrigo de montanha para agrupar novamente.

Nesta altura o nevoeiro é tão denso que à minha distração perco o Abílio que segue na minha frente com o maior grupo. Paro! Verifico a rede no telemóvel, mas antes de fazer qualquer chamada, decido carregar o track no relógio. Com os minutos a passar o grupo que vem mais atrás apanha-me e eu sigo por breves momentos com eles, até encontrar o meu colega parado à minha espera.

Reconheci aquele local. Estávamos no grandioso estradão que nos conduz até Seixinhos. Seria a penar daqui até ao alto onde nos esperavam as eólicas. Nesta fase temos melhores condições de visualização e acabamos por seguir sozinhos até ao topo que reconheci de imediato.

Tínhamos, agora, uma brutal descida até Mafómedes, onde encontraríamos o restante grupo. Descemos aquele trilho passando um grupo de pessoal do trekking que descia lentamente com os seus bastões. Tecnicamente tratava-se de um singletrack largo com cerca de 2,5 quilómetros de distância e um descendente de 500 metros. Deixamos as pernas cair enquanto os tornozelos lutavam com as pedras que batiam na sua direção. Descida infernal, pensamos por várias vezes.

Chegamos a Mafómedes e cumprimentamos todos os poucos populares que encontramos nesta pequena aldeia da freguesia de Teixeira no concelho de Baião. Paramos na Tasca do Valado, onde o maior grupo havia chegado há alguns minutos. Tínhamos 30 quilómetros percorridos em quase 5 horas. Após uma valente sopa, uma coca-cola e uma sandes de presunto, organizamos os pertences e fizemo-nos novamente ao percurso, que se antevia duríssimo, não fosse a chuva miudinha e gelada ter começado a cair.

Nesta fase do percurso o grupo voltou a separar-se. E ainda bem! As baixas temperaturas acabavam com as forças de qualquer um se alguém tivesse que esperar naquelas condições. O corta vento que tinha acabava de deixar passar toda a água para o interior do corpo e já sentia o frio no peito e nas mãos.

Continuamos a subir em direção ao Parque Eólico de Penedo Ruivo (1170m) o último grande cume que tínhamos para conquistar. O percurso continuava empedrado numa junção de xisto e vários pedaços de quartzo que se conseguia ver a reluzir no chão. Passamos a zona eólica e descemos rapidamente até entrarmos num estradão que nos conduzia por vales protegidos por pequenas montanhas procuradas por cabras para a sua pastagem.

Cruzamos o parque de merendas da Póvoa (Marão) e apreciamos as fantásticas imagens dos bosques e riachos que ali se encontravam. Esta fase final custou a passar, principalmente por causa do frio, uma vez que até aqui não tínhamos qualquer dor ou problema físico.

Tardou a nossa chegada à Pousada de São Gonçalo (ponto de partida) onde ainda encontramos algumas pessoas do grupo. Agradecemos de seguida toda a camaradagem e regressamos a casa com várias histórias para contar.

Notas finais:
– Fica o agradecimento ao pessoal da Ronda dos Cumes Sagrados pela organização do percurso e pelas informações úteis disponibilizadas antes da aventura.
– Nota ainda que este é um percurso exigente e que só deve ser percorrido com boas condições atmosféricas e físicas, e na companhia de pessoas que conhecem o terreno.
– O relato aqui partilhado foi feito com base nas informações que tenho da região e pelos dados GPS que obtive após a corrida.

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